Sustentar o desconforto das mudanças.
- Beca Yamashita

- 17 de abr.
- 3 min de leitura
Descobri que minha maior resistência às mudanças pouco tem a ver com medo do novo.
Meu maior obstáculo para agir e mudar é o medo de não conseguir sustentar o desconforto que as mudanças reais vão cobrar. Um exemplo claro é um projeto pessoal que sonho há dois anos. Agora que ele começa a se mover, me assusta e quase rouba o prazer dessas novas possibilidades.
Esse projeto pessoal (que deixarei em segredo, não por suspense, mas por preservação) é um grande sonho que, assim como todos os sonhos, vai causar muitos desconfortos. É algo que sempre idealizei, mas nunca fiz. É algo que tem o potencial de mudar minha vida em muitas camadas. É algo que vou dividir com pessoas que amo muito. Mas é algo que só a Beca “mulher bem resolvida e segura pode fazer.” E eu não sou a Beca “mulher bem resolvida e segura” na maior parte do tempo.
E eu não sou essa versão pela dificuldade de sustentar os desconfortos da saudade, da imprevisibilidade e do julgamento alheio (e aqui estou reduzindo, na verdade eu poderia ocupar muitas linhas listando todos eles).
A questão é que agora não tem mais volta. Vai acontecer. E a única coisa que me resta é decifrar esse enigma: "como encarar esses desconfortos e me abrir às mudanças?"
Após muitas espirais de pensamento e noites de insônia pensei em 5 passos necessários para atingir a versão mais segura que posso ser agora:
Identificar o que é desconforto e o que é pensamento catastrófico.
Desconforto é um problema "real" do agora, enquanto um pensamento catastrófico é uma corrente de pensamentos extremamente trágicos baseados em hipóteses pouco prováveis. Vou dar um exemplo:
Desconforto: a sensação de incapacidade de dirigir um carro que me faz sentir insegurança durante o percurso e me deixa hipervigilante com minha forma de dirigir.
Pensamento catastrófico: querer prever todas as tragédias que podem acontecer enquanto dirijo, de um acidente pequeno a um cometa atingindo a Marginal Pinheiros (eu gostaria de dizer que aqui estou exagerando, mas eu realmente já tive esse pensamento dirigindo).
Saber identificar o que é um desconforto e um pensamento catastrófico ajuda a racionalizar e pensar de forma mais clara. Esse é justamente o próximo passo.
Racionalizar e ter pensamentos mais claros.
Eu costumo recorrer a alguém de confiança para me ajudar. Falar em voz alta, expressar meus desconfortos e meus pensamentos catastróficos e pensar em um plano de ação para o que é real me ajuda a conseguir ignorar o cometa.
Silêncio para ouvir a intuição
Eu sou uma pessoa um pouco cética em relação ao conceito de intuição, porém, acredito que ela exista. Só acho que num mundo tão barulhento, intuição e paranoia se parecem demais. Por isso o silêncio é o que nos permitirá acessar a intuição.
Por “silêncio” quero dizer “abrir espaço para ouvir a si mesma”. É no banho sem ouvir podcasts, é no momento antes de dormir sem usar o Instagram, é numa caminhada até a padaria sem fone de ouvido. Se acostumar com esse intervalo dos hiperestímulos da vida é o que calará a paranoia e abrirá espaço para a intuição.
Assumir o desconforto.
Assumir é encarar a realidade: para realizar certas coisas, precisarei sentir algumas angústias. É aqui que eu, particularmente, costumo desistir. O desconforto de mudar precisa ser menor do que o de permanecer igual para que eu não desista. Costumo ter dificuldade de visualizar essa balança, mas eu sinto que listas de prós e contras materializam esses desconfortos e dão mais clareza das decisões.
Lembrar-se que mudar de ideia não é fracasso.
Eu preciso dessa segurança. Como alguém que sente uma necessidade grande de levar as coisas até o fim (mesmo aquelas que, claramente, deveriam ser abandonadas) eu preciso dessa cartada de poder mudar de ideia. Porque mudar de ideia é diferente de desistir. Mudar de ideia, muitas vezes, é muito mais sobre reajustes e pequenas alterações do que de completa desistência. Na verdade, saber que podemos mudar de ideia costuma diminuir muito a chance de desistência.
Eu gostaria de dizer que esses passos resolvem todas as minhas inseguranças, mas eu estaria mentindo. As madrugadas em claro ainda fazem parte da minha rotina. Mas fazer algo a respeito do meu medo de mudar ao menos tira um pouco da culpa que a apatia costuma me infligir.
Mudar é preciso, mas sentir-se segura também é. E as duas coisas precisam, minimamente, coexistir. Porém, assim como a mudança é iniciada por nós, a busca pela segurança e confiança também é.



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