Será que quero pertencer?
- Beca Yamashita

- há 7 dias
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(Foto: Divulgação)
Preciso ser honesta: estou fascinada pela decisão do BTS não submeter seu novo álbum ao Grammy.
Para quem não está por dentro dessa história: vou contextualizar. Se você estiver, pode pular esse o próximo parágrafo.
O BTS é o maior grupo de k-pop (pop coreano) em termos de visibilidade no eixo EUA-Reino Unido. Eu diria até que em todo o mundo. Após um longo hiato, o grupo voltou em março desse ano com um novo álbum, novos clipes, novas entrevistas. O fandom é gigantesco, engajado e muito protetor. Eles já foram nomeados em algumas categorias do Grammy - a maior premiação anual da indústria musical. Nunca levaram um gramofone (a “estatueta” da música) para casa. Acontece que o Grammy tem uma tendência: em suas categorias principais, raramente premia artistas de língua não-inglesa e dificilmente premia artistas não brancos.
As acusações de que o Grammy abre pouco espaço para artistas não-brancos não vêm de hoje. A artista mais premiada da história, Beyoncé, nunca tinha ganhado o prêmio de Melhor Álbum - o prêmio mais importante da noite - até 2024. O segundo álbum de língua não-inglesa a ganhar a gramofone de melhor álbum foi em 2025 o Debí Tirar Más Fotos, do Bad Bunny, um álbum em espanhol. Anteriormente, apenas o álbum Getz/Gilberto, de 1965, havia ganhado como melhor álbum do ano. Um álbum de jazz/bossa nova, majoritariamente em português, inclusive. Em 60 anos de história, apenas 12 álbuns premiados nessa categoria principal tem como artista principal um artista não-branco. É de se estranhar, no mínimo.
Esse ano, foi anunciado que o Grammy adicionaria a categoria Melhor Álbum de Pop Asiático. É difícil não enxergar como uma manobra de evitar que artistas amarelos e marrons renomados, competentes e que causam impacto na indústria musical sejam devidamente considerados para as categorias principais. Mais difícil ainda de não perceber como, continuamente, somos todos colocados no mesmo lugar, apesar das culturas completamente diferentes entre si. Particularmente, não acredito que a criação da categoria seja de todo ruim. Porém, dado o histórico da premiação, o questionamento é válido e tem fundamento.
Para qualquer minoria racial, é bastante identificável a dor de jamais ter chance de ser protagonistas. É por isso que a atitude do grupo de não submeter sua arte a uma premiação que segue provando seu desinteresse em premiar vozes de outras culturas é fascinante.
É um recado de “não queremos seguir lutando para pertencer onde já foi provado que não somos bem-vindos como os outros”. Essa mensagem é muito significativo. Mal posso contar a quantidade de vezes que eu mesma tentei de tudo para pertencer a um grupo mais privilegiado e quantas decepções colecionei ao fracassar.
Essa está longe de ser uma resolução definitiva de um problema tão complexo, profundo e de longa data, mas é inegável que esse posicionamento começa uma discussão importante: será que queremos pertencer a esses lugares?
Sinceramente, eu entendo o desejo de pertencer. Só desejando e caminhando com ferocidade em direção a esses lugares é que vamos, finalmente, ter acesso ao que costuma nos ser negado. Porém, há certas aprovações que vão perdendo o sentido ao longo do tempo. E talvez nosso desejo não seja o de pertencer, mas sim o de ser valorizado como quem pertence. Acredito que foi isso que o BTS percebeu: a valorização já existe, sem necessidade da aprovação do Grammy.


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