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Qual pizza você quer?

Todas as vezes que fui perguntada sobre o que eu quero, minha resposta teve alguma variação de "não tenho certeza".


Desde "que sabor de pizza você quer?" até "o que você quer da sua vida hoje?".


Recentemente, eu e minhas amigas estávamos planejando um projeto pessoal e, em dado momento, decidimos não fazer uma das atividades programadas anteriormente. Todas estavam de acordo.


Dias depois, uma das amigas veio dizer o quanto ela, na verdade, não queria desistir daquela atividade. Percebi que dizer aquilo exigiu muito esforço dela, mas eu e nossa outra amiga concordamos na hora. Sem pestanejar. Honramos sua vontade, porque nos importamos com ela. Pensei em quanta vezes eu - e todas as mulheres que conheço - deixamos de verbalizar nossos desejos e acabamos frustradas a ponto de sequer conseguirmos identificar nossos próprios gostos e preferências. A ponto de não conseguirmos escolher uma pizza.


Dizer o que quero é um desafio imenso. Na maioria das vezes eu nem sei o que quero.

A verdade é que querer nos é negado desde sempre, é encarado como “erro”. Às vezes, até como pecado. Mulheres que “sabem o que querem” são sempre vistas como difíceis de amar. Passamos a entender que atender e honrar nossos desejo pode nos colocar em um espectro de manipulação e egoísmo e que ceder ao desejo dos outros é o que nor torna mais bondosas e mais dignas de amor. É por isso que toda vez que eu escolho honrar um desejo, por menor que seja, sou acometida por um tipo de culpa que nem sempre compensa o desejo atendido.


Eu não tenho uma solução imediata para isso, mas descobri algo que considero essencial para a jornada da descoberta dos meus desejos: Saber o que quero é uma habilidade. E como toda habilidade, demanda treino e prática.


Um dos treinos é  não ter pressa para dar respostas e normalizar dizer "preciso pensar" antes de uma decisão. Outro treino é me incluir nas decisões, especialmente nas pequenas. "Sim, eu quero a pizza de rúcula com tomate seco" (o melhor sabor de pizza, sem espaço para discussão ok?).


Também percebi que desejar só é possível quando nos sentimos seguras para ser vulneráveis. Querer é vulnerabilidade. Talvez nossa falta de força para enxergar e aceitar nossas vontades venha da necessidade de ser forte e inabalável. Toda vez que me sinto fraca por querer, me lembro que todas as coisas boas começam com um desejo.


E quem sabe, ao encarar nossos desejos e vontades como força e potência, não abriremos caminho para que mais mulheres sintam que podem fazer o mesmo. Nós definitivamente precisamos de mais mulheres reconhecendo, aceitando e praticando suas vontades. E já que fazer por nós mesmas parece difícil demais, façamos umas pelas outras. Escolha a sua pizza.


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