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Bondade sem sinceridade

Se por acaso nor tornarmos minimamente íntimas, você descobrirá que sempre poderá contar comigo. E não digo isso como um autoelogio. Pelo contrário. Meu excesso de disponibilidade para ajudar os outros é quase patológico e nada altruísta. Na realidade, mora na necessidade de ser vista como alguém valiosa e muito útil. Serve para nutrir a ideia que quero que outros tenham sobre mim.


O maior problema da “compulsão pela utilidade” é que eu crio a expectativa de que todos ao meu redor farão o mesmo por mim. E quando não fazem, é muito difícil não me entristecer. Isso torna a minha “bondade” uma performance muito mais do que uma ação genuinamente boa.


Eu quero ajudar, claro. Mas eu quero o título de “a melhor amiga”, “a melhor esposa”, “a melhor pessoa” que você conhece. E eu também quero que você pense em mim mais do que em si mesma, assim como eu penso mais em você do que em mim mesma. Convenhamos, atitude nada saudável né?


Outro resultado nada saudável é que pessoas que realmente merecem e precisam da minha ajuda começaram a ter dificuldade em me pedir apoio. O receio de que eu vou dizer “sim” mesmo quando, na realidade, não deveria, fez aqueles que eu mais me importo me evitarem. Talvez essa seja a parte mais dolorosa. Poucas coisas me entristeceram mais do que ouvir da minha melhor amiga que ela enfrentou uma situação difícil sozinha porque “não quis ser mais um peso, porque você já ajuda pessoas demais”.


Então decidi me curar. Ou ao menos tentar. “Curar” é um termo forte demais para um traço de comportamento tão complicado…


A recuperação é demorada. Aprender a pensar antes de responder “claro, eu te busco aí” tem sido uma das coisas mais difíceis que já fiz. Sinto que me afastei de muitas pessoas por conta da dificuldade de dizer “não” e isso também é um efeito colateral muito ruim.


Percebo que uma das coisas que mais me ajuda a retomar controle das minhas decisões é estar cercada de quem enxerga essa dificuldade em mim e tenta garantir que estou sendo sincera na minha oferta de ajuda. Tenho amigas que sempre dizem “você não será menos amada se disser que não pode me ajudar”. Essas afirmações me confortam e o “desculpe, mas não posso” sai menos dolorido.


Para quem não tem esse (péssimo) hábito, pode parecer loucura dizer que ser “muito bondosa” tem sido prejudicial para os que estão ao nosso redor. Mas quem tem esse perfil, sabe exatamente dos danos que o excesso de “bondade”pode causar.


Por isso, dedico esse desabafo à todas as bondosas performáticas, com a seguinte mensagem: bondade sem sinceridade é apenas performance. E se somos assim, tão viciadas em ser boas, talvez deveríamos nos preocupar mais em ser sinceras em nossos atos de bondade.

 
 
 

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